Desenvolvedores do Ethereum estão promovendo uma nova forma de unificar o ecossistema após anos de fragmentação causada justamente pelas redes criadas para escalá-lo.
No domingo, a veterana equipe do Ethereum Gnosis e o projeto de máquina virtual de zero-knowledge Zisk apresentaram a Ethereum Economic Zone (EEZ), uma estrutura voltada a conectar os rollups de camada 2 de forma mais estreita à rede principal.
A proposta posiciona o Ethereum como o hub central, com o Ether (ETH) permanecendo como token de gas e camada de liquidação. Também introduz um modelo no qual contratos inteligentes podem interagir entre a mainnet e os rollups da EEZ com execução atômica.
A iniciativa surge no momento em que o Ethereum reavalia seu roadmap focado em rollups. Após transferir atividade para redes de camada 2, grande parte do valor econômico migrou para fora da camada base. Os rollups dependem do Ethereum para segurança e liquidação final, mas, na prática, acabam capturando taxas de usuários e receita, uma relação que alguns críticos descrevem como “parasitária”.
Tentativas semelhantes de unificar ecossistemas de blockchain fragmentados já foram feitas antes, com resultados mistos.

Problema de fragmentação do Ethereum
No último ciclo de alta do mercado cripto, o desempenho do ETH decepcionou muitos de seus detentores. Ele atingiu uma nova máxima histórica próxima de US$ 5.000 em agosto passado, mas foi apenas um avanço marginal em relação ao pico anterior. Não conseguiu acompanhar o Bitcoin (BTC), que ultrapassou US$ 120.000.
Muitos atribuíram o desempenho mais fraco do Ethereum à fragmentação de liquidez e à proliferação de redes de camada 2. Na terça-feira, 23 rollups protegiam coletivamente US$ 30,77 bilhões, segundo dados do L2BEAT.

“O Ethereum não tem um problema de escalabilidade. Tem um problema de fragmentação”, disse Friederike Ernst, cofundadora da Gnosis, em declaração compartilhada com o Cointelegraph. “Cada nova L2 lançada com seu próprio pool de liquidez e sua própria bridge é mais um jardim fechado.”
Ela acrescentou:
“A EEZ foi projetada para fazer o oposto. Um único Ethereum, não cem ilhas.”
Na prática, essa liquidez permanece amplamente isolada em rollups individuais, cada um com seu próprio ecossistema DeFi. O resultado se assemelha a um conjunto de economias paralelas, em vez de um mercado unificado.
O cofundador do Bankless, Ryan Sean Adams, comparou o estado atual do Ethereum e de suas L2s à Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), descrevendo-o como uma “aliança frouxa de chains que aderem a uma segurança compartilhada.”
A EEZ mudaria essa estrutura para algo mais próximo de uma união econômica federada de chains, semelhante aos Estados Unidos e seus 50 estados, sem exigir um hard fork.
“Eu não tinha visto muito avanço nessa visão até agora”, disse Adams.

A proposta impacta principalmente três grupos. Primeiro, para o Ethereum, pode melhorar a circulação de liquidez em todo o ecossistema ao reduzir a dependência de bridges, que continuam sendo uma grande superfície de ataque, já que os fundos ficam bloqueados em contratos e expostos a explorações.
Segundo, para os usuários, a EEZ busca permitir movimentação fluida entre o Ethereum e seus rollups, reduzindo o atrito e o custo de transferir ativos. Isso pode ser feito sem a necessidade de uso constante de bridges.
Por fim, para os protocolos, elimina a necessidade de gerenciar bridges, ativos wrapped e implantações específicas de cada chain, simplificando as operações em todo o ecossistema, segundo a EEZ.
Ethereum não é o primeiro a tentar uma “zona econômica”
Um exemplo de zona econômica já existe. A “Atom Economic Zone” (AEZ) foi a tentativa da Cosmos de conectar chains por meio de um modelo hub-and-spoke baseado em “Interchain Security”. As chains poderiam “alugar” segurança do Cosmos Hub em troca de compartilhar taxas e recompensas de staking com os detentores de ATOM.
O conceito voltou a ganhar atenção após o anúncio da EEZ, com o contribuidor inicial da Cosmos, Zaki Manian, destacando que uma ideia semelhante introduzida em 2023 não teve sucesso.
“A maioria das coisas falha e, portanto, o ecossistema inevitavelmente fica repleto de projetos fracassados, o que acaba levando à falta de confiança no projeto como um todo”, disse Manian.
O pesquisador de blockchain Dankrad Feist questionou como essa experiência se aplica à zona econômica proposta do Ethereum. Manian respondeu que muitos projetos construídos dentro da estrutura da EEZ também provavelmente “fracassarão”.
“A experiência da Atom é que o público em geral interpretará isso como um fracasso da EEZ”, acrescentou Manian.

A Cosmos não é exatamente como o Ethereum. Trata-se de uma estrutura e uma camada de rede, e o ecossistema Cosmos é uma rede de chains L1 soberanas.
Já o Ethereum é uma blockchain de camada 1 com uma hierarquia clara. Os rollups do Ethereum dependem estruturalmente do Ethereum para liquidação e segurança, alinhando seus incentivos à camada base.
O cofundador da Gnosis, Martin Köppelmann, participou da discussão com Feist e Manian ao contestar a comparação. Ele enquadrou a EEZ em torno da composabilidade síncrona e do acesso ao estado do Ethereum, em vez de segurança compartilhada ou modelos de receita.
A contrapartida é que os rollups precisam seguir eventuais reorganizações da chain do Ethereum, o que adiciona complexidade, mas Köppelmann descreveu esses eventos como raros e administráveis em comparação aos benefícios.
“Então, sim, estou disposto a apostar no sucesso da EEZ!”, acrescentou.
EEZ ganha força enquanto Ethereum repensa sua estratégia de escalabilidade
O roadmap focado em rollups do Ethereum foi amplamente visto como necessário quando foi introduzido e de fato conseguiu aliviar a congestão da rede.
Isso pode ter tido um custo. Alguns analistas de mercado argumentam que isso enfraqueceu uma oportunidade importante de valorização no último ciclo de alta. Eles também alertam que o Ether pode perder sua posição como a segunda maior criptomoeda para a stablecoin da Tether, o USDt (USDT).

Isso também ocorre após críticas do cofundador do Ethereum, Vitalik Buterin, que afirmou que muitas L2s ainda não fizeram a transição completa para um modelo descentralizado.
“A visão original das L2s e seu papel no Ethereum não faz mais sentido, e precisamos de um novo caminho”, disse Buterin em uma publicação no X em fevereiro.
Embora o movimento do Ethereum de voltar a focar na escalabilidade da camada base seja recente, a EEZ vem sendo discutida há bastante tempo. Uma versão inicial da ideia foi descrita como uma “visão de Ethereum 3.0” pelo cofundador do Bankless, Adams, após ouvir a apresentação de Köppelmann sobre rollups nativos em 2024.
A EEZ ganhou ampla atenção graças ao apoio da Fundação Ethereum e de sua equipe de desenvolvimento, que inclui a Gnosis, conhecida por desenvolver a carteira multisig Safe e infraestrutura inicial de mercados de previsão.
A EEZ ainda não revelou detalhes importantes, como sua arquitetura técnica e métricas de desempenho, mas afirmou que essas informações serão publicadas nas próximas semanas.

