Uniswap e market makers automatizados: o que são, como funcionam e como usar

Andrey Shevchenko
20 JAN 2021
Uniswap e market makers automatizados: o que são, como funcionam e como usar

Cointelegraph

1.

O que são market makers automatizados?

Exchanges descentralizadas onde traders negociam com contratos inteligentes e não com outras pessoas

Market Makers Automatizados (automated market makers), ou AMMs, são uma classe de exchanges descentralizadas que utilizam de fórmulas matemáticas para definir o preço de um token. Como as exchanges comuns, eles têm vários pares de negociação: por exemplo, Ether (ETH) para Dai.

A diferença é que não há ordens de compra ou venda, e os traders não precisam encontrar outra pessoa para vender suas moedas. Em vez disso, um contrato inteligente atua como o maker nas transações, realizando o trade. O conceito é semelhante aos serviços de exchanges como ShapeShift e Changelly, mas a diferença é que as reservas das empresas são substituídas por pools de liquidez que realizam as transações com base em contratos inteligentes.

Um pool de liquidez sempre oferece a negociação de dois ativos, sendo que a porcentagem relativa de cada token no pool é o que determina o preço teórico do ativo em questão. O primeiro Market Maker Automatizado a entrar em operação foi  o Bancor, lançado em 2017. Com o tempo, novos projetos de market maker automatizado entraram em operação, hoje, as plataformas mais populares hoje são Uniswap, Curve, Kyber e Balancer.

2.

Porque os Market Makers Automatizado existem?

Elas tornam o fornecimento de liquidez muito mais simples e barato.

Os market makers automatizados são uma tentativa de contornar as restrições de desempenho que as blockchains, especialmente Ethereum tinham na questão das negociações. Antes dos AMMs se tornarem proeminentes, as exchanges descentralizadas construídas no Ethereum, como EtherDelta ou 0x, tentavam usar um mecanismo clássico de livro de pedidos (order book) no sistema das finanças descentralizadas.

Nesse modelo, os usuários sofriam com problemas de liquidez, pois cada pedido exigia gastar gás e aguardar os tempos de confirmação do bloco. O baixo rendimento do Ethereum também significava que apenas um pequeno número de transações poderia ser submetido antes que a blockchain fosse completamente inundada por pedidos.

Isso era especialmente problemático para os market makers, os provedores de liquidez nas exchanges de livros de pedidos (order book). “Fazer” um mercado normalmente requer o ajuste constante das ordens de compra e venda ao preço mais recente, mesmo que elas não sejam atendidas. Quando cada pedido enviado custa dinheiro e tempo, eles podem perder mais do que ganham com o spread, que é a diferença entre o preço de compra mais alto oferecido e o preço de venda mais baixo.

Os market makers automatizados tornam o fornecimento de liquidez mais barato e simples por meio de um processo único e totalmente automatizado - daí o nome. Mesmo os usuários médios podem contribuir com sua liquidez, ao passo que fazer isso nas exchanges tradicionais requer conhecimento técnico avançado.
 

3.

Como os contratos inteligentes automatizam a negociação dos AMMs?

Uma fórmula matemática define o preço de um token específic

Ao negociar em um Market Makers Automatizado, os usuários interagem com o pool de liquidez. Nos bastidores, quando o usuário instrui o contrato inteligente a realizar uma negociação, o contrato envia seus tokens, como ETH, para a pool de liquidez. Uma fórmula matemática então decide quantos tokens do outro lado do par - por exemplo, Dai - eles devem receber em troca.

A fórmula prática mais simples é X multiplicado por Y igual a K, onde X e Y representam a quantidade de cada token na pool e K é uma constante predefinida. Essa equação define uma hipérbole: uma forma geométrica suave que se aproxima do infinito e do zero em seus extremos, mas nunca chega a alcançá-los.

Cada negociação tem uma certa quantidade de slippage - o quanto o tamanho do pedido afeta o preço final pelo qual um token foi comprado ou vendido. A forma de hipérbole significa que o deslizamento será baixo com pedidos pequenos, mas com pedidos grandes, o deslizamento aumenta exponencialmente. Uniswap é conhecido por usar essa fórmula simples, mas outras plataformas podem usar fórmulas matemáticas mais complicadas para ajustar o slippage.

4.

Como usar um market maker automatizado?

Conecte sua carteira e confirme as transações

Usar um protocolo AMM é bastante simples: os usuários visitam o site do protocolo ou outros front-ends, conectam uma carteira habilitada para DeFi ao protocolo, escolhem o ativo que desejam comprar ou vender, clicam em "trocar" e confirmam a transação em suas carteiras.

Fornecer liquidez funciona de forma semelhante à negociação. Depois de conectar uma carteira, os usuários podem ir para a seção “provedor de liquidez” e selecionar quanto desejam comprometer com a carteira. Na maioria dos protocolos, eles precisam ter os dois tipos de ativos disponíveis. Por exemplo, se a ETH estiver negociando por 400 Dai, eles precisarão fornecer simultaneamente 1 ETH e 400 Dai.

Depois de confirmar as transações, os usuários recebem um token que representa sua propriedade no pool de liquidez. Ele pode então ser transferido para qualquer pessoa ou resgatado novamente pelos tokens subjacentes, além de quaisquer taxas que eles possam ter acumulado.

5.

Por que os AMMs estão se tornando populares?

A descentralização e o uso sem permissão são melhorias poderosas

Provavelmente, os market makers automatizados já estão resolvendo o maior obstáculo à adoção generalizada de exchanges descentralizadas: a liquidez. Sem esse problema, os benefícios naturais de um DEX podem brilhar.

Ao contrário das exchanges centralizadas tradicionais, não há gatekeepers -controladores de acesso- que possam excluir projetos ou usuários. Os protocolos AMM não têm permissão e não exigem que os usuários configurem contas específicas ou passem por verificações rigorosas Know Your Customer (KYC, “conheça seu cliente”). Um endereço de carteira é tudo o que é necessário para interagir com os protocolos.

Exchanges centralizadas estão inclusive visando investidores que não estão interessados em se submeter aos processos de KYC, lançando versões descentralizadas de seus serviços. Um exemplo recente é a exchange Shapeshift que integrou uma DEX para aliviar o fardo do KYC para usuários. 

Da perspectiva de um projeto, os DEXs também são uma ótima maneira de liberar um token para o mercado e aumentar a liquidez. Não há taxas de listagem ou critérios de admissão, já que qualquer pessoa, mesmo um estranho, pode criar uma pool de liquidez para qualquer token.

Democratizar o ato de fornecer liquidez também significa que os fãs e detentores do projeto podem ajudar a criar um mercado líquido para novos tokens sem a necessidade de assistência de market makers especializados. Por fim, as exchanges descentralizadas AMM geralmente têm interfaces muito simples, pois não precisam colocar opções avançadas de pedido ou gráficos de preços em suas interfaces.

6.

Quais são os riscos e limitações dos AMMs?

Bugs, preços inadequados e perda impermanente

Apesar de algumas qualidades positivas, os AMMs apresentam certos riscos e limitações. Hacks e vulnerabilidades já afetaram exchanges como Uniswap e Balancer, onde alguns provedores de liquidez viram seu dinheiro roubado devido a complexas interações de contratos inteligentes. Por outro lado, com os traders expondo sua estratégia para o mundo ver, permitem que outros possam fazer front-run e tenham as ordens processadas primeiro e explorem usuários legítimos.

Os market makers automatizados também não podem existir sem que as exchanges tradicionais de pedidos tradicionais sejam utilizadas para arbitragem. As fórmulas matemáticas, apesar de sua elegância, não podem representar verdadeiramente o sentimento do mercado. Os traders de arbitragem são necessários para corrigir o preço dos ativos em um AMM, mas isso resulta em alguns problemas às vezes. 

Em resumo, os traders de arbitragem obtêm lucro equilibrando o preço, mas esse lucro é extraído dos provedores de liquidez. Apesar das taxas de negociação que recebem, os provedores de liquidez podem, na verdade, perder dinheiro se o preço se mover muito em uma determinada direção. A perda é “impermanente” porque o preço sempre pode se mover na direção oposta, mas na prática, isso nem sempre acontece.

Embora algumas melhorias estejam sendo feitas, o volume e a liquidez dos AMMs ainda são insignificantes em comparação com as maiores exchanges centralizadas. O congestionamento de gás no verão de 2020 também mostrou que eles estão começando a atingir seu limite máximo de uso, e melhores soluções de escalonamento serão necessárias no futuro para facilitar um maior crescimento.