Conversamos com o Hugo Xavier, Founder e Head de Trading da Hm trading, empresa especializada em negociações Over-the-Counter (OTC), Request for Quote (RFQ) e operações de cobertura (position hedging) que fornece liquidez para quase todas as corretoras de cripto, OTCs e instituições financeiras do Brasil. 

Rafaela Romano: A HM Trading é uma das maiores OTCs de criptomoedas do Brasil, fornecendo liquidez para todo o mercado.  Você pode explicar como é a atuação de vocês?

Hugo Xavier: Para responder essa pergunta é importante entender como era o OTC de cripto em 2017 quando se iniciou essa prática no Brasil. Hoje a maior parte do volume está em USDT e stablecoins, antes só operavamos Bitcoin e com a alta volatilidade, os problemas surgiam quase que diariamente. Além disso, as contrapartes não se conheciam, era difícil saber quem era quem no mercado, haviam muitos golpes e de  valores altos. Mercado novo e mal visto pelos bancos, surgiam problemas quase diariamente, comprador sumia caso o preço caísse, conta dos clientes bloqueadas, Teds que retornavam, etc.  

A HM sempre honrou seu compromisso com todas suas contrapartes assim, a nossa reputação foi sendo criada e hoje temos uma base fiel que escolhe operar conosco pelo respaldo da segurança que oferecemos. Foi também com essa solidez que conseguimos uma parceria exclusiva com a OSL e só nós podemos operar com a plataforma White-label deles no Brasil, além de outras vantagens competitivas. 

Rafaela Romano: Atuando no mercado brasileiro desde 2017, quais são as principais diferenças entre a alta de 2017 e a alta que vivemos agora? 

Hugo Xavier: Enorme, o hype que vivemos em 2017 era retail-boosted com indivíduos no mundo todo comprando cripto para aderir a nova onda, foi um FOMO que se prolongou um pouco e se destruiu em 2018. 

A alta de 2020 é totalmente diferente, Bitcoin se estabeleceu de fato como uma reserva de valor, com muitos players institucionais como a Fidelity, Ark, MassMutual, CME, etc com participação definitiva. 

''Vale salientar que o horizonte de investimentos deles é enorme: 10, 20, 30 anos e todo esse volume de cripto comprado foi enviado para long term holding, ou seja, não será vendida a qualquer oscilação como ocorreu em em 2017 onde panic sells era frequente.''

Somado a isso, temos ainda o fato de que a  pandemia nos mostrou o quão frágil e dependente dos Bancos Centrais nossas moedas são, incluindo aí o Dólar e o Euro. Em economias emergentes e de fronteira, a necessidade de bitcoin como um hedge cambial é essencial na minha opinião.

Rafaela Romano: Com o crescimento do mercado, novos instrumentos e empresas começam a surgir e impulsionar esse desenvolvimento. Qual a importância das negociações via OTC para a expansão do mercado? 

Hugo Xavier: Essencial, assim como no mercado financeiro tradicional onde quase todos os ativos são negociados em OTC’s e alguns exclusivos a ele, era de se esperar que não fosse diferente no mercado de cripto. Porém há algumas peculiaridades em cripto que torna os OTCs ainda mais atraentes:

- Exchanges centralizadas quase sempre possuem alto risco de crédito (recente caso da Okex, por exemplo).

-Grande parte do volume ainda está em exchanges ''off the radar” como Bitmex para Bitcoin, Uniswap para os derivados do ETH;

-A quantidade de fake orders, wash trading e spoofing é enorme, pois ainda não há legislações para essas más práticas no mercado de cripto, onde é basicamente liberado operar de qualquer maneira dentro das exchanges, sem contar com o fato de que elas também apostam contra as posições de seus clientes.

Os players institucionais sabem disso e preferem negociar com OTCs para mitigar todos esses riscos e com a competitividade que existe hoje ainda conseguem preços melhores do que teriam se fossem recorrer a exchanges.

Rafaela Romano: De acordo com os dados disponibilizados pela Receita Federal, os brasileiros declararam a negociação de mais de R$100 bilhões em criptomoedas no último ano. O que motiva esse crescimento brasileiro? Quais números devem ser atingidos em 2021?

Hugo Xavier: A IN 1888 da Receita Federal é na minha opinião um grande avanço para o mercado de cripto no Brasil. Todas as partes envolvidas, sejam elas, Bancos tradicionais, bancos de câmbio, corretoras e OTCS se sentem mais seguras e protegidas. Clientes que não usam a IN são automaticamente cortados por quem atua de forma séria no mercado. Em 2021 esse número certamente crescerá pois entrarão ainda mais instituições no mercado mundo afora, tornando-o mais robusto. No Brasil ainda há bastante carência de players do mercado tradicional operando em cripto, mas acredito que isso deve mudar nos próximos anos, pois nossas principais referências econômicas (EUA e EU) estão dando feedbacks positivos em relação a cripto e permitindo que a inovação no setor aconteça mais rapidamente. O caso do OCC Americano dessa semana foi mais um exemplo positivo para nosso setor.

 Rafaela: O desequilíbrio entre a oferta e demanda de Bitcoin é impressionante. Em dezembro, a Grayscale comprou mais do que 3 vezes o número de Bitcoins minerados. A demanda institucional tem provocado uma crise de liquidez, com dados sugerindo que apenas 22% dos Bitcoin emitidos estão em circulação. Como um provedor de liquidez, qual sua perspectiva sobre esse desequilíbrio e como tem sido fornecer bitcoin para o mercado?  

Hugo Xavier: Sim, as pessoas finalmente perceberam que bitcoin é finito e muito escasso, isso vai levar o preço dele a patamares muito maiores do que estamos agora, esse ano acredito que vai começar a verdadeira guinada do Btc. Para quem fornece liquidez isso muda pouco, a volatilidade deveria tender a aumentar os spreads, mas a grande concorrência no mercado tanto local quanto internacional com muitos provedores não permite que isso ocorra. O que mudou é que os players precisam ser muito mais eficientes nas suas execuções para não serem surpreendidos pela volatilidade. Em 2017, por exemplo, se ganhava 2-3% por transação, havia bastante margem para operar devagar, como dizia no mercado dava para arbitrar duas exchanges “de bicicleta”. Hoje a margem chega a 0.07% e todos que sobreviveram precisaram se adaptar e operar via APIs, bem como formas mais eficientes.

Rafaela Romano: Para finalizar, o que acha que acontecerá com o Bitcoin nos próximos dez anos?

Hugo Xavier: Acho que ele será reserva de valor, não será usado para transações pequenas tendo em vista a sua escassez, dificuldade de mineração e transparência, o que o tornará ainda mais valioso. Antes qualquer um comprava 1 bitcoin, hoje custa USD 35.000, isto é, menos acessível e provavelmente daqui a 10 anos vai ser possuidor de uma fortuna quem tiver 1 bitcoin inteiro.

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