Organizações Autônomas Descentralizadas, DAO, na sigla em inglês, é um termo utilizado para descrever grupos de indivíduos que se organizam digitalmente ao redor de uma ideia, propósito ou objetivo de negócio em comum e operam de maneira descentralizada para tornar essa ideia real, defender esse propósito ou alcançar esse objetivo de negócio. 

As DAOs são também uma nova forma de captar fundos em suporte a essas causas, utilizando blockchains para controlar como esses fundos são captados e utilizados. Alguns protocolos de finanças descentralizadas, DeFi, e projetos de tokens não fungíveis, NFTs, também utilizam esses mecanismos para governar.

GenesisDAO, a primeira DAO

Em maio de 2016 membros da comunidade do Ethereum (a primeira blockchain programável, que introduziu o conceito de contratos inteligentes) conceberam um smart contract sob o nome de “The DAO”. Esse protocolo permitia a qualquer um depositar qualquer quantidade de ETH em uma carteira digital associada ao protocolo, recebendo em troca tokens DAO. Esse processo acumulou 12.7 milhões de ETH, cerca de 150 milhões de dólares à época. O objetivo dessa DAO inaugural era permitir que a comunidade propusesse diferentes projetos e esses fossem eleitos pela comunidade da DAO - os detentores dos tokens DAO, recebendo financiamento para o desenvolvimento daquele projeto.

Como qualquer software, o smart contract da The DAO tinha algumas fragilidades, permitindo que um hacker drenasse uma grande quantidade de ETH da carteira da The DAO. Esse evento forçou um hard fork (uma alteração no estado da rede) na rede Ethereum para a devolução do ETH que havia sido drenado, o que abalou não só a The DAO, mas a estabilidade da rede Ethereum, deixando uma lição para toda comunidade de que ainda havia muito para amadurecer esse modelo de governança.

Ferramentas para as DAOs

Com o boom dos projetos de DeFi e NFT nos últimos dois anos, as comunidades tem se organizado em DAOs para facilitar o alinhamento e o apoio a esses projetos. Fazer isso de maneira descentralizada utilizando apenas o Twitter ou listas de email não é apenas uma tarefa muito difícil, mas também muito arriscada: informações pessoais são muito fáceis de serem capturadas nesses meios, então foi preciso que o mercado se desenvolvesse, trazendo novas ferramentas para administrar essas comunidades. Os projetos com DAOs mais maduras tem times de pessoas trabalhando em tempo integral para gerenciar todas as interações entre os, às vezes, milhares de membros.

O kit básico para operar uma DAO inclui ferramentas para facilitar diversas funções:

  • Gestão das contribuições e das reputações dos participantes, tais como GitCoin, GOVRN e Wonder;
  • Gestão da tesouraria, tais como GnosisSafe, Llama e Utopia;
  • Gestão do conhecimento, tais como Notion, HackMD e GitBook;
  • Governança e votação, tais como Snapshot, Everest e BoardRoom;
  • Gestão de identidade, tais como IDX, Proof of Humanity e ENS;
  • Discussão e colaboração, tais como Discord, Rocket Chat e Telegram.

Nem todas essas ferramentas são fáceis de aprender, ou intuitivas ao se utilizar, mas sem elas a tarefa seria virtualmente impossível.

Desafios e Sucessos

Envolver pessoas do mundo todo em suporte a um objetivo comum era algo impossível antes da internet, mas organizar algo duradouro requer equilibrar comunicação e incentivos entre os participantes. As DAOs mais bem sucedidas tem feito uso das ferramentas disponíveis, desenvolvendo outras ferramentas quando as existentes não são satisfatórias, e, acima de tudo, criando organismos realmente autônomos.

ConstitutionDAO

Como ainda estamos nos primórdios desse tipo de organização, ainda existem desafios e lições a serem aprendidas. O exemplo mais emblemático desse momento da história é a ConstitutionDAO. Essa DAO foi concebida em um debate no Twitter e tinha o objetivo de levantar fundos para vencer o leilão de uma das 13 vias originais da constituição dos Estados Unidos. Em questão de horas já haviam ferramentas de gestão, colaboração e captação de fundos disponíveis para quem quisesse participar dessa aquisição. O hype foi tão grande que dos 47 milhões de dólares captados em ETH em pouco mais de uma semana, 5% foram de carteiras criadas somente para esse projeto, e cerca de metade dos doadores tinha menos de 40 transações em suas carteiras.

O leilão foi realizado pela Sotheby’s, que listou os lances em várias moedas e, pela primeira vez, ETH. 

Leilões são, por natureza, uma competição entre poderes aquisitivos e, como a tesouraria da ConstitutionDAO era gerida sobre a rede Ethereum, uma blockchain pública, o saldo da DAO era conhecido, e a DAO acabou perdendo a batalha para um investidor bilionário, que deu um lance um pouco maior do que tinha a DAO. E porque o único objetivo consensado da ConstitutionDAO era comprar a constituição, devolver os fundos captados acabou custando caro em taxas de gas.

Ethereum Name Service

O principal exemplo de uma DAO mais autônoma é o Serviço de Nomes do Ethereum, ENS, na sigla em inglês. ENS é um registro descentralizado onde os usuários podem cadastrar um endereço mnemônico, mais fácil de lembrar, para usar suas carteiras da rede Ethereum. Ao invés de se comunicar usando um conjunto ininteligível com o0xjfdçl234098s98ksdlkj2..p9snd03878n, os usuários desse serviço podem usar algo simples como

A operação do ENS é totalmente executada de maneira autônoma e a comunidade da ENSDAO só entra em ação quando alguma proposta de mudança é levantada por algum membro da comunidade, e o direito de voto pode ser delegado a representantes de maneira digital, apenas para aquela proposta individual. Ao final da votação os direitos retornam a seus detentores, sem prejuízos

O projeto foi originalmente desenvolvido por voluntários e só veio a lançar seu token de governança no final de 2021. O token $ENS foi distribuído via airdrop (enviado diretamente do smart contract para cada uma das carteiras listadas na data e hora de corte e que atendiam critérios mínimos para receberem #ENS). Toda essa ação foi realizada e é operada usando as ferramentas dos tipos listadas acima.

Democracia Líquida

As DAOs mais bem sucedidas nos permitem vislumbrar um dia vivermos um regime de democracia líquida, que é uma forma de administração pública que mescla a democracia direta (onde cada cidadão manifesta diretamente sua opinião através do voto) e a democracia representativa (onde representantes intermediários são eleitos para mandatos amplos e com duração específica). 

Antes disso será preciso experimentar diferentes modelos de governança, automação e ferramentas, endereçar o modelo monetário vigente na maioria das DAOs (um token = um voto, mas é possível acumular tokens), padronizar e até simplificar suas regras. Desse modo será possível para organizações e a sociedade tomarem decisões de forma dinâmica, transparente e consensada, com consequências mais amplas e igualitárias.

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