O Digital Currency Initiative do Massachusetts Institute of Technology (MIT DCI), revelou uma nova iniciativa com o objetivo de fomentar a pesquisa para ajudar no desenvolvimento da Blockchain do Bitcoin. 

A iniciativa de código aberto recebeu apoio de um grupo diversificado de líderes da indústria cripto, incluindo Cameron e Tyler Winklevoss da Gemini, o CEO da Microstrategy Michael Saylor, o CEO da Square Jack Dorsey, e a principal empresa de ativos digitais da Europa, Coinshares.

Para quem não sabe, o DCI do MIT é um programa de pesquisa e desenvolvimento que já tem quatro anos e visa fortalecer a rede Bitcoin e administrar o compromisso da indústria de financiar o desenvolvimento do Bitcoin.

Paralelamente a isto, Andreas Antonopoulos disse no começo de fevereiro que já usa a Lightning Network (solução de segunda camada para a escalabilidade do bitcoin) há 2 anos, e que inclusive já a usa para folha de pagamento mensal. Mas que ele está “focado na inclusão econômica, que requer dinheiro descentralizado ‘unstopable’, o que requer um mercado de taxas”. Se quiser saber mais sobre Lightning network e outras soluções de escalabilidade, leia aqui.

Mas você deve estar se perguntando, qual a relação das notícias acima com nosso artigo de hoje. 

Trocando o pneu com o carro em movimento

Estas notícias servem para pontuar que a rede bitcoin, assim com outras redes de código aberto, estão em pleno desenvolvimento e em constante aprimoramento.

Não a toa, tem sido anunciado o lançamento nos próximos meses do Taproot - o upgrade do Bitcoin que melhorará sua pilha de software, aprimorando a escalabilidade da rede, a privacidade das transações, a custódia, além viabilizar “contratos inteligentes” mais leves e complexos.  

Mas se as redes de código aberto estão em pleno desenvolvimento, com a entrada de novos players a cada dia (como tem acontecido na rede bitcoin e que levou a capitalização de mercado a 1 trilhão de dólares), o que isso significa para a descentralização? 

Qual a relação entre os “custodiantes de redes” e a descentralização?

Quando falo sobre “custodiantes da rede”, estou me referindo aos participantes essenciais para o funcionamento de uma rede de código aberto.

Custodiantes da rede são aqueles participantes que protegem a rede, validam transações, “rodam” um “full node”, enfim, os que mantêm o ledger e o armazenam.  

E para a compreensão deste artigo, um conceito que gosto de usar para descentralização é:

A descentralização de uma rede diz respeito a protocolos de consenso substituindo uma autoridade central. 

Isto é, em vez de depender de uma autoridade central para validar transações entre os usuários do sistema, a rede utiliza protocolos de consenso para validar transações e registrar dados de uma maneira incorruptível. 

Pois bem, uma das coisas importantes que tenho observado é: 

O grau de requisitos de uma rede de código aberto muda com o tempo.

Logo, o lançamento de qualquer protocolo de rede de código aberto “descentralizado” começa de um ponto central, mesmo que seja o bitcoin do Satoshi.

E assim, as redes com o tempo (e especificamente as redes descentralizadas de modo geral) nascem centralizadas e, pouco a pouco, ganham corpo e crescem em operações de “nodes” (participantes em uma rede distribuída).

Portanto, cada vez que pensamos em descentralização, deve haver milhares de custodiantes de rede individuais e independentes uns dos outros em várias dimensões.

A importância da descentralização

Há muitas corporações e investidores interessadas em projetos Blockchain e, dependendo do momento em que o desenvolvimento da rede esteja, a pressão provocada pela entrada de um enorme volume de capital na rede pode não ser apropriado para um projeto que ainda precise de consideráveis melhorias estruturais.  

Esta “pressão” pode, por exemplo, levar os custos de transação a patamares altíssimos que acabe inviabilizando os projetos desenvolvidos na rede blockchain, porque a infraestrutura da rede ainda não estava pronta para comportar aquela demanda.
Há tantos componentes diferentes que compõem uma rede que podem afetar a descentralização. 

O aperfeiçoamento de uma rede Blockchain leva tempo, e exige um contínuo aprimoramento.

Bem por isso, a palavra-chave aqui é a “descentralização progressiva”, proporcionando capacidade de rede aos seus custodiantes e uma rota sustentável para a evolução da rede. Daí, a importância da descentralização:

A implementação total da descentralização em uma rede possibilita seu uso “por qualquer pessoa” e com “custo quase zero”. E isto exige tempo e foco no desenvolvimento da rede.

Logo, esse é um ponto muito importante quando se começa a trabalhar de forma centralizada com um projeto que busca a descentralização.  A contagem de cada “node” deve ser considerado um indicador abstrato do grau de descentralização.

Como nada melhor que exemplos para compreender algo, veja na figura abaixo redes que são razoavelmente novas e que tem se expandido nos últimos anos. 
Observe na imagem onde algumas dessas redes precisam ser aprimoradas, o que na figura abaixo está enumerado abaixo do número de nodes. Na rede Bitcoin, pex., há exigências de aprimoramento nos sistemas de backup locais, deployment plugins, monitoring plugins, etc. 
 

Ora, essas melhorias e o balanceamento da infraestrutura após tais melhorias mudam constantemente, porque as necessidades dos “custodiantes da rede” se alteram com o tempo (algumas exchanges têm requisitos de infraestrutura diferentes, etc.) 

Pois bem, um dos pontos-chave que é preciso ter sempre em mente é...

Redes são um jogo coletivo à longo prazo, e levam tempo

Outro ponto muito curioso e interessante é que cada rede fala sua própria língua, mas procura desenvolver logo no início os mesmos padrões:

  • Desenvolve as melhores práticas, e incentivos múltiplos para garantir que o servidor de mainnet seja funcional e cumpra a missão do projeto. 

  • integra partes interessadas “não técnicas” desde o início para proteger a rede.  

  • auxilia no desenvolvimento de ferramentas de olho nas fases posteriores de descentralização (API etc).  

  • cria sistemas para automatizar em escala.

Se preocupar em fixar e seguir os padrões acima desde o início é importante para garantir que a rede seja funcional e alcance sua missão (inclusão econômica, ativo de proteção de riqueza, por exemplo). 

Muito disto envolve assegurar que os incentivos e a configuração econômica de uma rede permita que ela se torne descentralizada ao longo do tempo.  

Ora, uma vez que você tenha stakeholders com mais de 50%, é muito difícil descobrir (dependendo do modelo de consenso), como fazer mudanças econômicas que sejam boas para a rede como um todo, pois custodiantes da rede “menores”, que podem ter objeções à mudança, devem ser considerados numa rede que se pretende descentralizada.
 

Um ecossistema próspero depende da educação dos new players

É preciso tomar cuidado para que os custodiantes de redes não acabem considerando apenas um interesse periférico, ou o interesse dos maiores custodiantes da rede como, pex., o interesse financeiro dos mineradores na rede bitcoin, ou o interesse econômico dos novos players institucionais, desconsiderando a missão principal do projeto. 

Eis aqui a razão do alerta de Antonopoulos transcrito no início deste artigo: “a inclusão econômica, requer dinheiro descentralizado ‘unstopable’, o que requer um mercado de taxas”. 

É importante que a concorrência obtenha o melhor preço de um token, ou obtenha a menor taxa para transações, e isto só é possível com o equilíbrio no desenvolvimento da rede.

Portanto, é muito importante que as pessoas entendam que para um ecossistema validado e próspero, é preciso tempo e isso significa que há muitos componentes diferentes que fazem parte disso e precisam ser considerados (não só os novos players de impulsionando o preço do token nativo).

Então é preciso muita educação em torno dos principais fundamentos, principalmente aos novos players.
 

Assista aqui um vídeo de Antonopoulos ensinando sobre a importância da “neutralidade da rede”, quando Bitcoin valia apenas USD $ 100 (cem dólares).

Daí porque, a nova iniciativa do MIT DCI (mencionada no início deste artigo) recebeu apoio de um grupo diversificado de líderes da indústria cripto, como a Coinshares (principal empresa de ativos digitais da Europa), Cameron e Tyler Winklevoss da Gemini, bem como de novos players já cientes da importância dos principais fundamentos da rede Bitcoin, como Michael Saylor (CEO da Microstrategy), Jack Dorsey (CEO da Square).

Os investidores precisam ter certeza de que entendem o risco de participação em uma rede PoW  (Proof of Work) antes de investir, e usar seu capital para ajudar na construção da descentralização.  

É por isso que eu, particularmente, não estimulo novos participantes a ingressarem no mercado apenas pelo “preço” do ativo nativo da rede, mas sempre aconselho a estudarem e entenderem o “real valor” de redes como o Bitcoin.

Os validadores precisam aprender a não prejudicar outros validadores e a executar um modelo de negócios que não seja usado para eliminar os concorrentes.  Os projetos precisam realmente trabalhar cedo com investidores e validadores para garantir que o ecossistema permaneça funcional.  A competição de livre mercado ideal deve ocorrer em um estágio posterior do projeto, quando o custo da descentralização for próximo de zero.

O que a maioria dos novos investidores neste mercado ainda não compreende é que não é do interesse da maioria dos stakeholders em uma rede obter o melhor rendimento na Internet.

As altas taxas de transação, a escalabilidade, por exemplo, são alguns dos muitos problemas que novas redes enfrentam quando há um aumento de demanda sem a maturação suficiente. 

Obviamente se você possui ótimas experiências com exchanges e custódia, você também trará novos participantes para rede, que não estão necessariamente alinhados com a ambição de longo prazo do projeto.  E esses novos participantes se conectam e podem eventualmente começar a ditar a governança do projeto, estimulando a liquidez, o volume, a especulação.

Não estou dizendo que isto (especuladores atraídos pelo volume, estimulando enorme liquidez em uma rede ainda num estágio ideal para receber uma grande adoção) é necessariamente ruim. O que estou dizendo é que tais fatores, em qualquer projeto descentralizado de código aberto, sem um reforço e Investimento proporcional em pesquisa, pode tornar o desenvolvimento das redes difícil.

Takeaway

O desenvolvimento de uma rede de Código aberto em processo de descentralização (como bitcoin) leva tempo.

Ainda haverá muitas questões a serem aprimoradas em torno de sua estrutura como, pex, a escalabilidade e privacidade que serão melhoradas no já mencionado Taproot (próximo update na rede bitcoin).

Neste contexto, apesar de estarmos caminhando para um mundo descentralizado, onde cada vez mais os modelos de negócios e as interações na Web 3.0 se darão em redes abertas, com respeito à privacidade e a proteção de dados, com os indivíduos no centro das relações digitais (e não mais como produto do capitalismo de vigilância), é importante levarmos em conta que ainda estamos num processo, e que para alcançarmos um padrão bitcoin, é preciso manter o foco do desenvolvimento das redes abertas na descentralização.  

O futuro já está aqui, só não inteiramente distribuído..., ainda